Quarta-feira, 24 de Outubro de 2007

Os pequenos ditadores

A problemática da intervenção desajustada das famílias na escola é uma situação a ser analisada seriamente, e com cuidado, para não cair num "socialismo" exacerbado que acabará por a destruir.

 

Os alunos, hoje, são ditadores prepotentes, cavalgando em rédea solta sem saber quando parar. Imaginem no que se tornarão quando atingirem a idade adulta...

 

Para mim, duas situações podem ocorrer. Uma é tornarem-se insensíveis à opinião e liberdade dos outros, cerceando-a , extinguindo-a e substituindo-a pela sua. Outra, é a de se tornarem extremamente sensíveis, procurando a todo custo, e em transe, extremadamente, respeitar essa mesma liberdade e opinião.

 

O que acontece, é que uma e outra posição são pólos que, isoladamente, criam desequilíbrios . Estamos, portanto, não a conduzir para a construção de uma verdadeira identidade pessoal que se insira num contexto de comunidade, onde a liberdade e a opinião de cada um respeita a liberdade e opinião dos outros, mas a criar duas "espécies" polares: os que mandarão sem olhar aos meios ou que obedecerão sem questionar.

 

Cada cidadão deve ser capaz de intervir quando necessário, pensando, questionando, atribuindo e atribuindo-se responsabilidades, mas também deve ser capaz de avaliar e analisar que também é sua função, em certas circunstâncias, compreender e aceitar a vontade dos outros.

 

Mas a nossa política educativa resume-se a dar poder aos que não são capazes de dizer não aos seus filhos, que não conseguem transmitir um quadro normativo de valores da sociedade em que se inserem, sem que no entanto isso queira dizer abdicar dos seus valores enquanto núcleo familiar. Quero dizer que eu posso educar para um quadro normativo de valores intrínseco à minha maneira de ver o mundo, mas ao mesmo tempo tenho de ser capaz de transmitir que dentro de nossa casa é uma coisa e que isso se altera quando transpomos o limiar definido pela ombreira da nossa porta.

 

É muito difícil distinguir esta fronteira, bem sei, mas é por isso mesmo que cada núcleo familiar não deverá querer impor a sua visão educativa desinserida do contexto normativo nacional de valores, pois estes meninos não se irão cingir a habitar a sua zona de intervenção. Eles irão ser os adultos de Portugal, disseminados pelo país e interagindo com outros como eles. Já imaginaram se mais do que um "pequeno ditador" se encontra com outro? Como cada um entende e compreende a sua existência como única e especial, exacerbada pelo seu egocentrismo potenciado pela "ausência" de autoridade paternal prolongada pela ausência de autoridade da escola, então estaremos perante a possibilidade de intolerância pelo outro. Perante esta situação, quanto acham que vale a vida humana para essa pessoa?

 

O reforço da autoridade da escola NÃO PASSA pela família enquanto POLÍCIA da intervenção da escola e dos seus intervenientes, quer sejam professores ou auxiliares educativos. Para isso existem as estruturas próprias de cada instituição. Um cidadão pode não concordar com a actuação de um polícia, mas não é ele que vai definir, na esquadra, a acção a realizar contra ele, segue procedimentos próprios e instâncias próprias. O mesmo para médicos nos hospitais, e muitos outros tipos de funcionários.

 

Na escola não, as atitudes instantâneas são aquelas que ficam na memória, mesmo que depois se verifique que a acção foi desproporcionada ou até "ilegal". A criança observou e reteve aquele comportamento e assume que "sou especial, pois bati no colega mas o meu pai/mãe diz que a culpa foi do outro ou do professor ou da escola. Fixe, da próxima basta-me fazer queixinhas ao meu pai/mãe, mesmo que seja mentira, e estou safo!".

 

Serão estes aqueles que queremos para o nosso futuro? Será este tipo de sociedade que queremos? Não creio!...

 

Para isso, os pais têm de deixar de ter medo dos filhos, pararem de se recriminar por passarem pouco tempo com eles e dizer NÃO, pois são esses NÃOS que promoverão a sua capacidade de encaixe perante a adversidade, ao mesmo tempo que desenvolvem a sua consciência crítica para ultrapassar a adolescência entendendo que nem sempre podem GANHAR.

 

Acho que a melhor maneira de descrever o que estamos a fazer foi aquilo que muitas vezes ouvi dizer de muitos meninos: "deve ser filho único!...". Isto acontecia quando os meninos tinham tudo sem fazer nada, eram mimados e tudo o que diziam era aceite incondicionalmente .

 

Pais, Mães e Encarregados de Educação... e na sua inoperância, Membros de qualquer Governo, não deixem que os nossos meninos e tornem naquilo que os estão a transformar, pois eles, quando adultos, chegarão à conclusão que não é isso que desejam. Isto funcionará bem enquanto forem poucos assim, mas quando forem muitos, não se suportarão uns aos outros e virar-se-ão contra vós e contra a vossa inoperância negligente. Assumam o seu papel enquanto educadores que nós, professores, conseguiremos assumir o nosso papel enquanto formadores.


publicado por Pedro Santos às 09:23
link do post | comentar | favorito
|

.Mais sobre mim


. Ver perfil

. Adicionar como amigo

. 1 seguidor

.Visitas bemvindas

.Setembro 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.O que escrevo

. O ataque ao direito ao tr...

. E o decreto-lei 132/2012,...

. Mutualização da dívida do...

. Um pensamento sobre o sub...

. A crise e a poupança

. Uma análise à crise portu...

. Se eu fosse Primeiro Mini...

. O Minsitério da Educação,...

. O Excessso de Zelo

. O 5º Congresso Educação

.Portas para outras dimensões

.Quem me liga

Web Pages referring to this page
Link to this page and get a link back!

.Procure(a)

 

.Portas para outras dimensões

SAPO Blogs

.subscrever feeds