Sexta-feira, 28 de Março de 2008

Os psicólogos e a (in)ducação

Finalmente ouço publicamente alguém dizer alto e bom som que um dos problemas (quiçá o maior!) do ensino em Portugal, e da educação em geral, são os psicólogos! Não enquanto profissionais que devem e precisam de existir, mas enquanto pessoas que, num pressuposto experimentalista, opinam e moldam mentalidades com os custos que todos nós vemos nos nossos infantes e adolescentes, e respectivos papás...

A teoria do Bom Selvagem (se ainda aqui não escrevi, muito tenho falado junto dos meus colegas e afins) é uma das maiores falácias do sistema! Já foi terra que deu uvas, e até acredito que funcionalmente fosse correcta ao tempo em que foi formulada, mas quando transposta de forma linear para os tempos de hoje, enferma de vícios minimalistas que deturpam as relações de autoridade entre os indivíduos.

Tinha ouvido a expressão "que a democracia em Portugal tinha tido um parto difícil", ao que eu acrescento que padece de depressão pós-parto, pois os pais da democracia socialista portuguesa, numa tentativa de exorcizar tudo o que tivesse relação com autoridade, e logo fascizante, aboliu todo e qualquer controlo que fosse redutor da devida intervenção do indivíduo nos seus destinos.

É bem verdade que se deve deixar, e até obrigar, os indivíduos a serem responsáveis por aquilo que lhes reserva o seu futuro através das suas decisões, mas quando numa perspectiva futura se vê que a opção é a menos correcta, devem os mais avisados, num dever de cidadania, não deixar que se cometam erros demasiado graves.

Deve-se aprender com os erros, mas nunca deixarmos que os erros sejam de tal dimensão que coloquem em risco o futuro individual e colectivo.

Isto vale tanto para alunos como para paizinhos!

A escola é a antecâmara da sociedade! A escola deve ser o primeiro lugar onde os infantes e adolescentes são confrontados com a sua realidade social. É na escola que eles terão as primeiras verdadeiras frustrações e desamores. É na escola que aprendem a ser indivíduos de pleno direito, porque é lá que aprendem a lidar com uma autoridade que os sobrepõe e coloca no devido lugar, quer gostem ou não. Deveria ser na escola que tudo isto aconteceria... deveria... mas não é!

Todo o percurso escolar é feito num pressuposto utópico de que a sociedade civil aceitará todas as diferenças individuais, e que os gostos, preferências e atitudes individuais serão respeitadas... nada mais falso! Depois admiramo-nos que os nossos jovens adolescentes (naturalmente) e jovens adultos tenham dificuldades de integração. É claro que assim acontece, porque tudo até então lhes disse que o seu ser individual é que interessa, e que o todo tem de se moldar a si, não importa a que preço e quem seja prejudicado.

A relação entre duas faces da mesma moeda está neste momento em antagonismo puro. O colectivo e o individual estão de costas voltadas por causa dos psicólogos que, de tanto estudarem o problema, se tornaram eles mesmo o problema. Quando se avalia o indivíduo em contextos controlados, e em que estes têm acesso a informação privilegiada por múltiplos meios, a avaliação final será sempre parcial e subjectiva. Quando os psicólogos se arrolam no direito de dizer por que método se deve ensinar uma criança numa sala de aula tendo só em conta a sua avaliação individual, acirrando os papás e mamãs contra a escola porque o professor assim não faz, sem atenderem à realidade do grupo, onde as necessidades individuais por vezes têm de ser esbatidas pela força da diversidade e do número de alunos (sim, até 25 alunos, com Necessidades Educativas Especiais e mais de 2 anos de escolaridade) numa mesma sala.

Os psicólogos deveriam trabalhar com os professores, e não os professores trabalhar com os psicólogos! Estes deveriam ser auxiliares da sala de aula e não mais uns que criticam e destroem mais do que constroem. As suas análises demasiado técnicas e sem apresentar soluções reais para os problemas dos meninos e meninas que não sejam o apaziguar dos corações criando por vezes esperanças onde ela deveria ser acalmada, criam rupturas entre os diversos agentes que participam na vida dos meninos e meninas. Não quero com isto dizer que devem ser postos à parte, mas estarem incluídos numa turma onde as suas capacidades definitivamente não se enquadram com o todo é um prejuízo para todos, desde os alunos referenciados, aos seus companheiros e a todos quantos têm de procurar dar resposta para perguntas por vezes sem resposta.

A escola deve ser um local de trabalho e de dedicação, e enquanto se quiser que seja um local de sedução e amor, tudo estará em risco. Podemos nós só trabalhar naquilo que gostamos, ou por vezes temos de fazer aquilo que é preciso? Qual é a mensagem que estamos a passar aos nossos meninos e meninas? Que quando crescerem só farão aquilo que gostarem porque tudo tem de ser sedução e amor!...

 

publicado por Pedro Santos às 00:16
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