Sábado, 27 de Setembro de 2008

O Professor-mestre e o que não fazemos!

Neste momento sou contra a posição Professor-Educador, antes acreditando na função Professor-“Ensinador”!

 
Podem os puristas dizer que quando se ensina está-se implicitamente a educar, mas eu não concordo, porque basta ver o que anda a acontecer nas nossas escolas.
 
A ser verdade essa afirmação, tínhamos meninos “educados”… bem... educados eles são, são é mal-educados!
 
Eu sinto falta do professor-mestre, de ter liberdade para ser mestre e realmente educar, mas na infernia de papelada, burocracia e desígnios misteriosos dos nossos “deuses” iluminados, estamos cada vez mais perto do professor-desastre!
 
O primeiro objectivo a atingir, e competência a desenvolver, é a oralidade, mas cada vez mais se vê que os meninos não a atingem nem a desenvolvem.
 
Parece uma porta aberta para atacar desde já os professores, porque sendo estes os executores de tal desiderato, serão os mesmos os responsáveis pelo insucesso nesta área, mas não é assim.
 
Os alunos cada vez mais vivem numa redoma intocável individualista onde impera o silêncio e o isolamento pessoal (televisão, PC, Playstation, …), logo, o tempo que se dispende a “falar com os alunos” deveria ser ampliado e estimulado, mas o que se vê são os programas estarem iguais, haver mais áreas a desenvolver, e o tempo ser inversamente proporcional, isto é, menos tempo útil para cada área pela multiplicação da intervenção do professor.
 
Depois, e como vai haver avaliação (embora antes já a houvesse!), há que haver uma preocupação em registar à força seja o que for, desde o professor aos meninos, diminuindo o tempo útil para “falar”.
 
Ouvindo falar mais do que falando, o aluno corrige-se a si próprio, ouve correctamente e estrutura o seu pensamento com novos conhecimentos, integrando naturalmente sem necessitar de compreender porque as coisas são assim.
 
Ouvindo então falar bem, começará a falar melhor; falar melhor leva a descobrir o prazer de falar; descobrindo isso, falará mais quer na aula quer nos espaços de partilha de grupo; falando mais desenvolve a estrutura da língua; desenvolvendo a estrutura aprende a escrever naturalmente (com o devido apoio indispensável!); aprendendo a ler e a escrever compreende o que lhe é pedido; compreendendo o que lhe é pedido, aprende com facilidade e promove a auto-aprendizagem!
 
Eu gosto de falar com os alunos, estar assim a divagar, percorrer caminhos que o momento proporciona, explorar temas e conteúdos que podem não ter a ver com as áreas curriculares ou até de interesse de ciclo específico, e quando isso acontece, quando os alunos vêem paixão nas palavras, acompanham em silêncio e bebem tudo. O que farão com o que ouvem? De imediato talvez pouco, mas quando se lhes for pedido que escrevam, imaginem, dissertem ou leiam um texto sobre algo diferente e novo, acredito e sei que aquilo que ouviram e não fez todo o sentido então, o terá e fará nessa altura!
Mas quando se fala com os alunos não há registos! Mas quando se fala com os alunos não há ouvidos! Então que fazer? Continuar a falar com os alunos e deixar de lado esta burocratização e formatação do ensino que quer criar o professor-robot!
 
O que acontecerá? Provavelmente notas menos positivas na avaliação porque para fazer isto tem de se ser um apaixonado, um romântico, um cabeça livre, e isso não é muito condizente com a necessária organização total de papeladas e respeito por datas específicas ou documentos específicos.
 
Porque não se pode dar aulas ao sabor da vontade, e integrar os conteúdos nessas vontades sem planeamento?
 
Porque tudo tem de ser fundamentado? Nem tudo na vida tem razões visíveis, nem tudo pode ser quantificado e racionalizado, e quando falamos de ensinar (educar, caso pudéssemos ser professor-mestre) o objectivo último é que interessa, porque os meios obrigatórios que nos impõem para chegar a um fim não se justificam. Querem o ensino dessa forma os professores que não sabem dar aulas e querem sentir-se seguros; querem os burocratas dos serviços competentes escrever sobre o que não sabem porque dar aulas é algo que se não projecta. Um projecto humano não tem metas tão limitadas, e um PCT está desactualizado no momento que é feito, logo, a sua consecução escrita é perda de tempo, pois esse tempo devia e podia ser aplicado nos alunos.
 
As planificações anuais de agrupamento são desnecessárias porque existem os programas oficiais que definem as metas anuais!
 
As planificações mensais são desnecessárias porque ao fim de uma semana, quem conseguir estar dentro dos prazos não respeita os ritmos dos alunos!
 
As planificações mensais de agrupamento então muito menos, porque duas escolas lado a lado podem não conseguir seguir o plano já que as variáveis humanas não são máquinas uniformes!
 
As fichas de avaliação comuns de agrupamento são perda de tempo porque não reflectem cada escola, cada método e cada vivência interna, mesmo com os mesmos livros e materiais!
 
Então para quê tudo isto? Porque se tem a ideia de que o insucesso escolar está ligado aos professores e não à realidade politico-educativo-social!
 
Para quê e como deveria ser utilizado o tempo perdido nestes trabalhos inglórios?
 
Para serem espaços de reflexão entre professores, para debater as dificuldades do exercício docente, para partilhar experiências e estratégias sem medos de critica ou de ouvir que cada um que se desenrasque porque não há tempo para isso.
 
Sim, o tempo que cada um dedica aos seus parceiros de profissão é pequeno porque se perde tempo em tarefas laterais.
 
Poderão dizer que essas reuniões não levariam a lado nenhum, mas isso seria só de início. O ser humano é capaz das maiores proezas! Se fossemos obrigados a estar as duas horas numa sala com carácter de obrigatório a olhar uns para os outros, acabaria por chegar o momento em que começaríamos a fazer o que de melhor todos temos e sabemos, e que foi um dos pilares da nossa evolução: comunicar uns com os outros!
 
Então porque não o fazemos? Porque como qualquer menino e menina, se não formos estimulados a partilhar, não o fazemos!

publicado por Pedro Santos às 19:47
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1 comentário:
De Elisabete Ribeiro a 8 de Outubro de 2008 às 21:03
Mais uma vez rendo-me à capacidade única que tens em transmitir em palavras escritas o que vai na mente e corresponde a uma realidade nua e crua. Fiz um post no meu blog e referenciei este artigo ( penso que não te importas).
Continua amigo...continua


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