Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2010

O 5º Congresso Educação

 

Este congresso deixou muito a desejar em termos de qualidade que o tema exigia bem como de qualidade de apresentações.
Foi um chorrilho de apresentações tipo o que acontece nas reuniões intercalares dos Planos de Formação de Língua Portuguesa e Matemática, com alguns professores seleccionados (?) a apresentarem as virtudes do seu trabalho e enaltecendo (endeusando ficaria melhor!) o trabalho magnífico e o caminho libertador que as formadoras lhes propuseram!
Muitos adjectivos foram utilizados pelos professores que expuseram os seus trabalhos, em particular depreciativos de si mesmos, tais como “não sabia fazer”, “não sei”, “ansiosa”, “desesperada”, “tinha insegurança”, “défice”, “receio”, entre outros.
Juro que me fez lembrar os encontros de uma marca de produtos de dietética e de beleza começada por “H” e terminada em “life” e que pelo meio faz lembrar “erva”. Os oradores procuraram demonstrar que antes do Novo Programa de Matemática do Ensino Básico nada existia, o trabalho era inócuo e até impróprio, e que os que trabalham sem ser no NPMEB são incompetentes e que só prejudicam os seus alunos.
Questionada por uma pessoa da plateia, uma das apresentadoras disse “os meus antigos alunos não estão a seguir”, “a professora não dá seguimento”, “os alunos estão ao Deus dará!”, “do que falo com os pais”… mas porque é que ainda fala com os pais se já lá não está?
Também se extrapolaram resultados sem que tenha havido já tempo para que se possam aferir resultados comparativos, como apreciar alunos que estão a dar o antigo programa de matemática e que a par, como um grupo de controlo, findo o ensino básico, se possam comparar resultados desses alunos com os resultados dos alunos do novo programa.
Até já se chegou ao cúmulo de dizer que uma professora na sala ao lado que não lecciona pelo novo programa é uma pobreza (a expressão não foi esta, mas o adjectivo procurou mostrar que a professora é uma incompetente!) comparado com os alunos que seguem o novo programa.
Mas será que as pessoas que procuram enaltecer o seu valor depreciando o valor dos outros não percebem que estão sujeitos ao mesmo destino?
Será que as pessoas não têm experiência suficiente para perceber que por vezes há uma resposta positiva na primeira fase e que depois acontecem plataformas de aprendizagens? E que alunos que antes não demonstravam aparecem com resultados idênticos ou superiores porque maturam em tempos diferentes?
Só findo uma geração, e comparando essa geração com os seus pares que seguiram um caminho diferente é que se pode verificar da validade de um trabalho. E não se podem comparar alunos de gerações diferentes, porque o que era válido antes, as experiências que carregavam consigo eram também diferentes. Por isso é que em qualquer experiência se criam grupos de controlo em tempo igual para que os resultados sejam extrapoláveis.
Para concluir, ouvi uma investigadora e formadora dizer que se o aluno não aprende a culpa é dos professores, assim sem mais, sem contextualizar sem nada. Eu até aceito esta frase, mas tem e deve ser contextualizada em muitas dimensões. Até pode ser verdade, mas não introduz as variáveis “tempo pessoal do professor”, “limitações materiais e humanas” nem a “multiculturalidade e grupos heterogéneos dentro da sala de aula”. Se analisarmos esta necessidade de criar os espaços de aprendizagem com suportes individuais de trabalho em cada turma, somando os tempos de planificação diários, correcções de trabalhos e fichas, reuniões e até “substituições” de professores que se vão embora das AEC e as Câmaras demoram até (!) três meses a substituir, e ainda procurar implementar o mesmo para Língua Portuguesa e Estudo do Meio, e ainda criar espaços para desenvolvimento de Projectos, das TIC, de Estudo Acompanhado, de Formação Cívica, então o dia de aulas deveria ser de 10 horas diários para os alunos, e o professor tinha de pedir ao Deus Chronos para criar uma unidade de tempo especial para o professor que tornasse o dia de 24 em 48 horas, mais um tempinho para também nós sermos pais!
Parece-me que querem que sejamos todos “tias” do sistema, e que abdiquemos da nossa vida pessoal e familiar. Isso, meus senhores e “tias” do sistema, era do tempo do outro senhor, em que até para casar era preciso pedir autorização ao Presidente do Conselho!
Quem quer ser missionário vá para África! Ser professor exige dedicação mas não implica escravidão! Ser professor é uma profissão, com horas estabelecidas de trabalho e momentos em que somos SÓ pessoas simples!
Vou utilizar aqui uma frase que uma pessoa uma vez me disse: “ser professor não é ser mercenário nem missionário!”. Interpretando o que disse, retiro que devemos dar mais do que sair logo que toca mas também não devemos conduzir a nossa existência dentro da escola e dos alunos e esquecermo-nos que somos gente também!
O Congresso foi uma desilusão! Nem um exemplar dos manuais, adaptado aos novos programas, vimos ou recebemos!
P.S. Algumas professoras, na sua imensa sapiência e condução de trabalhos matemáticos (e nenhuma referência das formadoras!), escrevem para meninos do 1º ano de escolaridade e no 1º ciclo como se estivessem a escrever para adultos, sem respeito pelo grafismo manuscrito que é nosso dever fazer!

publicado por Pedro Santos às 16:20
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