Quarta-feira, 3 de Outubro de 2007

Estado, Escola e Família

A minha definição de Educação – conjunto de competências adquiridas por cada indivíduo ao longo da sua formação, obtidas de diversas formas e em diversos formatos, através de vários agentes e instituições.

 

Estado – deve garantir os direitos, liberdades e garantias através de legislação que promova o acesso à Educação e ao Ensino a todos os cidadãos de uma forma igualitária e universal.

 

Escola – deve ministrar os conteúdos académicos necessários para que o indivíduo detenha as competências essenciais para se integrar na vida activa adulta de forma equilibrada e participativa.

 

Família – deve promover a construção de um quadro referencial de valores como o respeito pelo outro e pela autoridade, a disciplina, a capacidade de trabalho, e que este se deve integrar numa comunidade como elemento integrante e não como elemento único e especial à volta do qual todos giram.

 

Dadas estas definições do trinómio que envolve a Educação, há que esmiuçar a sua interdependência, e o que está a falhar hoje nestas relações.

 

O Estado não está a promover as suas obrigações, pois o mesmo ensino não é ministrado a todos de forma igual e universalmente. Há escolas muito boas e escolas muito más, há alunos que têm a escola ao pé de casa e outros que têm a escola a distâncias longas, quer horárias quer quilométricas e há escolas onde o material abunda e outras onde quase falta o papel higiénico. Mais poderia dizer, mas estes exemplos são elucidativos.

 

A Escola não está a cumprir as suas obrigações pois está numa situação dúbia e confusa, emparedada entre dois conceitos que ao mesmo tempo a amplificam e reduzem. A Escola quer ensinar mas perde-se nesta dimensão pois são os professores que têm de ser assistentes sociais, psicólogos e, acima de tudo, pais. E aqui entram o terceiro vector, a Família, que, legitimamente, e em função da legislação em vigor, exige essas funções mas não dá autonomia de aplicação de valores educativos à personalidade do professor. Senão vejamos. Um aluno apresenta comportamentos inapropriados, sejam de desvio ou não. O professor, em virtude da mole de alunos que estão à sua frente e à sua guarda, opta por tomar medidas em função do controlo do grupo, que é constituído por meninos e meninas de diversos níveis e estratos da sociedade. Como cada Família tem a sua maneira de ver a Educação, irá exigir que cada filho, individualmente, tenha uma Educação individual.

 

Mas aqui, há ainda que ter em conta vários factores e variáveis. Um deles são as Famílias demissionárias, que não sabem, não podem ou não querem trabalhar para a Educação dos seus educandos. Mas mesmo nestes casos, a Família ainda pode ir à Escola dizer que os professores estão errados e que não deveriam agir desta ou daquela forma. Então, como pode alguém dizer como educar se não sabe, não pode ou não quer dar Educação?

 

A Família não está, portanto, a cumprir com as suas obrigações. É aqui que eu entendo estar o busílis da questão. Estes três vectores devem estar interligados entre si, mas não numa situação de sobreposição de uns em relação aos outros.

 

O Estado deveria começar por responsabilizar as famílias no aspecto educativo puro do termo, iniciando um processo de responsabilização efectiva dos Pais e Encarregados de Educação pelos comportamentos dos seus educandos, e não os educandos pagarem pela ineficiência de quem tem o dever de tomar conta deles. Muitas medidas podiam ser tomadas, como redução do subsídio de desemprego, obrigação de frequentar acções de sensibilização… não, sensibilização não, de desenvolvimento pessoal e social com o respectivo acompanhamento posterior para verificar da aplicação de conhecimentos adquiridos na área da Educação para a Educação.

 

Diminuídos os problemas que resultam da falta de Educação dos alunos, os professores poderiam virar-se para a sua vertente essencial, a leccionação, e os alunos para a sua função primária, o trabalho e a aprendizagem.

 

De tudo o que escrevi, nenhum dos vectores está a fazer aquilo que devia, uns porque são obrigados a isso e outros porque o não são. A mensagem que se passa é “ a culpa nunca é minha (pais) e nem do(s) meu(s) filho(s) porque quem tem de educar é a escola e não eu”.

 

Um exemplo prático que para mim é paradigmático. Como não se consegue (ou não se quer!) que alguns alunos de algumas franjas da sociedade apresentem um registo de assiduidade de acordo com o estipulado em lei para apresentar sucesso escolar (transição de ano), cria-se uma figura de prova que permite aos alunos “baldas” (porque não vão, porque os pais não querem saber onde andam ou não os levam à escola porque estão cansados, ou porque estão a dormir, …) transitar de ano. Mas já alguém estudou quais os alunos que ultrapassam o limite de faltas, de que sectores da sociedade são mais frequentes, ou que motivos houveram para esse ultrapassar do limite? Parece-me que sim, e esta medida é um salto no vazio, uma vez mais procurando mascarar a realidade por detrás da falta do Estado no apoio a certas franjas da sociedade, ou pelo excessivo apoio sem a respectiva contrapartida. Quando se tem em vista a perda de algo que nos faz falta por causa de algo que podemos controlar, aplicamo-nos mais e investimos nesse algo.

 

A Educação está mal por causa do Estado, da Escola e da Família, cada um com a sua culpa, por actos e/ou omissões.


publicado por Pedro Santos às 12:40
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2 comentários:
De ESR a 6 de Outubro de 2007 às 13:42
Tenho lido alguns dos teus textos, e mais uma vez penso que só colocar as tuas ideias no teu blog não chega. Permite-me que te dê uma opinião muito pessoal. Se discordares, comenta (e mesmo que concordes:) ) Perante os imensos temas, dúvidas, aspectos, preocupações, pontos de vista e mesmo críticas, julgo que deverias condensar tudo num livro e tentar a sua publicação. São muito pertinentes as tuas ideias e os textos abrangem temáticas que é do interesse de muitos reflectir sobre elas.


De Pedro Santos a 6 de Outubro de 2007 às 20:21
Obrigado pela força que me estás a dar. É uma possibilidade, visto que o estar "errado" até pode ser a porta para a discussão de temas que podem estar adormecidos e esquecidos. Acima de tudo, gostaria de poder contribuir para a construção de uma classe mais sólida, solidária e consciente. O que neste momento gostava mesmo era que mais pessoas (professores e não só) viessem aqui ler as minhas dúvidas e reflexões, comentando positivamente ou negativamente, que, desde que não de forma ofensiva, serão todas publicadas. Até breve e Bem Hajas!


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